E o barco?

dezembro 18, 2008

dal

 

dal1

 

 

 

Começo a escrever pelo fim. Ou melhor, pela festa de fim de ano de uma turma que convive dia após dia no trabalho. E que o faz nem sempre por escolha, mas por contingência. Felizmente, dessa contingência surgem grandes amizades, dessas capazes de marcar nossas vidas para sempre. E um detalhe do acaso, se transforma em uma boa surpresa do destino.

Mas o assunto era a festa, que de tão especial me remeteu a sentimentos mais nobres do que apenas entusiasmo.

Relembrando o contentamento de todos, penso, por que deixamos para o fim? Por que distribuímos abraços apertados só em dezembro? Por que nos acabamos de dançar apenas uma vez no ano? Não tenho essas respostas. E os sorrisos mais sinceros? E as coisas nunca ditas antes? E as lágrimas de despedida? (no fim do ano, tem sempre alguém fazendo as malas). E os brindes espontâneos? E as histórias para contar no outro dia? E aquelas para lembrar pelo resto da vida? Também não tenho essas respostas. 

Quando chega o fim do ano é inevitável ter mais perguntas do que respostas, ter a sensação de que poderíamos ter vivido mais, poderíamos ter acordado mais cedo, dormido mais tarde ou ter acordado mais tarde, dormido mais cedo. Perdido mais tempo, ou nada disso, menos tempo, ou quem sabe, perdido tanto tempo a ponto de perder a noção do tempo. Enfim, não importa se mais ou se menos, mas poderíamos ter feito alguma coisa diferente.

Se fizemos a escolha certa, sendo verdadeiros ao invés de políticos, nos posicionando (e desagradando) ao invés de ficar em cima do muro, veremos logo adiante. É inevitável a dúvida na medida que é mais forte a certeza de que somos feitos de erros e acertos.

Mas o assunto era a festa, que de tão especial me remeteu a sentimentos mais profundos do que apenas alegria.

É… acho que não consegui falar da festa como um evento de protocolo, quase obrigatório. Na beira do Guaíba eu vi algo diferente, vi uma mistura de amizade, retrospectiva e expectativa. Com entusiasmo de sobra. Com alegria de sobra. Com cerveja de sobra.

O barco? Fica para a próxima.

 

 

(nessa foto estão apenas alguns da turma…)

 

 

 

 

Anúncios

Para Cachinhos Dourados

dezembro 10, 2008

Minha filha, desde sempre eu tento responder a todas as tuas perguntas e encaro todas com naturalidade, mesmo que muitas delas sejam um pequeno susto para mim, como um dia desses, por exemplo.

– Mamãe, eu vou morrer?

– Sim, filha, como todo mundo.

(e ela já com voz de choro, parte para a segunda pergunta…)

– E vou ficar pra sempre morrida?

– Sim

(e antes que eu tentasse qualquer explicação, já começou…)

– Mas eu não quero…. e Jesus, mamãe, ele morreu duas vezes, morreu e viveu, não ficou morrido.

(na tentativa de rebater a essas argumentações, falei algo do tipo…)

– pois é, Rafaela, a vida é assim, isso é o natural.

– Não, porque Jesus…

Daí me complicou a vida…

Na verdade, quando tiveres mais idade, vais achar graça dessas perguntinhas, mesmo que a resposta ainda seja a mesma e nada engraçada: sim, filha, como todo mundo.

A próxima pergunta da noite já foi mais fácil.

– Como é banana em espanhol, mamãe?

eeeeeeeeeeeeeeeee essa eu sei.

 

 

pomba!

dezembro 4, 2008

Relendo algumas reportagens de Zero Hora, que contavam sobre as  viagens de uma família (minha família) me pus a pensar em Tia Margarida, a tia avó que eu tanto admiro. Não sei o que eu vai ser deste texto, pois a responsabilidade de escrever algo a altura e o peso de sua personalidade me inibe um pouco. Em mim, já sei, ficará a inevitável sensação que deveria ter aproveitado mais a sua presença e a sua singularidade. Lendo o livro que ela escreveu sobre a sua infância na estância, ao mesmo tempo que escrevo aqui, essa inevitável sensação só aumenta.

Com certeza a Tia Margarida não era o tipo de guardar recordações em um baú, do passado ela tinha fotos e o resto estava na sua cabeça, que para mim, era o próprio baú cheio de histórias e idéias.

Personagem ímpar, inteligentíssima, professora de geografia e história. Sempre preocupada em passar adiante seus conhecimentos sobre a história da família, não perdia a oportunidade de encarregar minha mãe – Heleninha – desse legado. Por sorte, ela não herdou apenas o conhecimento sobre a história da família, é incrível a semelhança entre as duas, não física, mas vejo através dela a perpetuação de algo bom.

Com pensamentos interessantes, a Tia Margarida tinha uma cabeça muito à frente de seu tempo, moderna e prática, aliás, muito difícil representá-la com palavras, mas nunca vou esquecer suas tiradas e aquela franja esquisita que ela gostava de usar. Foi dela, em uma visita que me fez em Santa Maria, que ouvi a explicação mais convincente sobre Deus, “uma força da natureza” e ponto final.

Quando eu tinha uns 20 anos, fiquei uma semana com ela em Porto Alegre, e não preciso dizer para os que a conheciam, que ela quase me enlouqueceu. Primeiro, o tour pelo apartamento, me explicando o funcionamento de tudo, o curso de como dobrar sacolas (aulas práticas e teóricas), a proibição expressa de trancar a porta do banheiro, todas as coisas, inclusive roupas, guardadas em potes plásticos, as técnicas de como desligar a televisão (ligando e desligando várias vezes) e me chamando de Heleninha todo o tempo, lembro que eu pensei em anotar tudo o que se passou nessa semana, mas mesmo assim, seria difícil explicar essa inusitada semana com a Tia Margarida.

Não vou dizer que sua alma deve estar em um lugar maravilhoso e especial, como a Estância da Música, porque na verdade não é nisso que eu acredito, para onde vão as almas, “pomba!”, sei lá. O que eu sei é que tudo o que a Tia Margarida representava aqui, nesse mundo, não se repetirá.