joão-ninguém X sem-terra

setembro 20, 2009

Todos os dias eu leio a coluna da Rosane de Oliveira na Zero Hora. E neste dia 20 de setembro não foi diferente. Mas o que me faz escrever agora é a forma como discordo do que acabei de ler.
Em relação à morte do sem-terra Elton Brum da Silva na fazenda Southall em São Gabriel, a jornalista comenta: o silêncio (sobre e morte e os culpados) só se mantém porque não há pressão da sociedade pela divulgação do nome do rapaz. O morto era um joão ninguém – e não falta quem aplauda a violência contra os sem-terra.
Mesmo repudiando sempre a morte e a violência em relação a qualquer ser humano, a sociedade em geral tem tido muito mais a lamentar. Lamentamos por famílias que trabalham sem trégua é não conseguem seus sustentos, lamentamos pelas filas imensas em hospitais sem atendimento. Lamentamos pelos indigentes nas ruas, lamentamos a miséria, a falta de educação, lamentamos pelas crianças com fome e com febre. Lamentamos tudo o que nos fere, o que machuca o ser humano e sua dignidade.
Não tenho dúvidas que a sociedade silenciou em relação ao sem-terra morto – não por concordar com um assassinato – mas por estar cansada de acompanhar as barbáries que esse movimento comete e os rumos que essa verdadeira massa de manobra está tomando.
Minha cara Rosane, eu tenho orgulho especialmente de um joão-ninguém e tenho certeza de que cada pessoa neste Estado tem um João para se orgulhar. Meu bisavô se chamava João e era uma pessoa simples, um peão, um gaúcho que deu tanto duro que conseguiu ser alguém através do trabalho, através do trabalho na terra. Essa terra que faz divisa com outra terra, que abriga outra família e que muitas vezes conta a mesma história. Tanto uma quanto a outra pode estar ameaçada por uma causa vazia, ou melhor dizendo, por um bando sem causa nenhuma.
Hoje estamos na quarta geração e no futuro essa terra (já bastante dividida) estará nas mãos de um outro João, meu irmão, que vai herdar um pedaço do que construiu nosso bisavô: uma terra produtiva e cheia de história. Ele herdará uma missão para continuar e uma ameaça chamada MST que ronda toda uma classe.
Sei também que o tempo dos bisavós era outro e por isso eu lamento pela vida sofrida de tantos joão-ninguém, que assim são chamados por representar homens e mulheres comuns, trabalhadores sem oportunidades, gente sofrida. Pessoas que com esperança olham para os lados em busca de compaixão e com desespero olham para cima em busca de um milagre, mas não enxergam ninguém.

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Para sempre teu, Caio F.

setembro 4, 2009

Estou lendo sobre a vida de Caio Fernando Abreu, memórias que a escritora e amiga Paula Dip descreve assim “é importante dizer que este livro não é uma biografia, Caio não cabia numa vida, mas sim uma tentativa de registrar nossa amizade…”. Enfim, definições do amor.
Estou quase no fim e feliz com a sensação que este livro causa em mim. O livro não é apenas interessante pela vida e obra de Caio F., mas pelo momento histórico (década de 70 e 80) contado pelas vozes da cultura – talvez contracultura – da arte, um verdadeiro testemunho das décadas finais do século XX, anos de extremos, de antagonismo, assim como a personalidade de Caio Fernando Abreu.
Além de uma boa sensação, sinto também uma certa nostalgia da minha profissão de origem (publicidade) que tem a criatividade na atmosfera. Sei que é ilusão em alto grau causada pela tendência de viver com um pezinho (e um pensamentinho) no passado, mas é uma boa ilusão.
Vou fazer o seguinte: procurar à minha volta a “poesia” que o meu chefe diz que existe no lugar onde trabalhamos. Muitas vezes acho que esse termo é usado como sinônimo de beleza, de rima, de ritmo, de um happy end – talvez aí divergimos, meu amigo. Para mim, a poesia de estar em um lugar ou em um momento é a forma como isso consegue me atingir, a intensidade da alegria ou da dor causada. Para mim não adianta representar o poder ou a beleza ou a tristeza ou a felicidade, mas sim, ser constituído verdadeiramente disso.
(Entretanto, também acredito na poesia de ser testemunha através do trabalho de um momento histórico importante.)
Não se pode negar que um lugar que sugere status, que muitas vezes é foco de atenção, de poder, que está na mira da mídia, naturalmente é interessante. E poético ao seu modo. Mas não creio nessa “ribalta”, ao contrário, sinto pena de quem se importa muito com isso, percebo os problemas decorrentes dessa relação deturpada com o poder. Essa relação que fecha os olhos e ouvidos para algo que não esteja na superfície.
E o pensamento crítico? E a capacidade de análise? E a independência de opinião? E a liberdade de expressão? Essas questões me parecem estar na contramão daquele discurso de que “não adianta, sempre funcionou assim…”. Confesso que sou quase alérgica a essa frase.
Mas onde andará Caio F.? Vou agora mesmo procurá-lo nessa biografia de muitas vidas…