A última Veja chegou só agora às minhas mãos, uma edição que traz a reportagem de capa Maconha – as novas descobertas da medicina cortam o barato de quem acha que ela não faz mal. Estou muito orgulhosa da minha prima, a jornalista Adriana Dias Lopes, que assina a matéria. Não apenas pela riqueza de sua escrita, qualidade das fontes, pela clareza, coerência, enfim, pela excelente matéria – nem se poderia esperar menos da capa da revista mais importante do Brasil. Estou orgulhosa, sobretudo, pela importância dessa reportagem, que não tenho dúvidas terá sérias (e positivas) influências no rumo da questão no país. Na minha opinião, foi abordado o assunto por completo: do ponto de vista legal ao medicinal.
É no mínimo uma pausa no oba oba em torno do modismo da legalização e da aparente caretice de quem é contra. Dá até um fôlego para alguém, como eu, que jamais experimentou essa droga, poder reafirmar a posição com tranquilidade.
Adriana, o mais sincero elogio que eu posso te dar é o seguinte: esta edição ficará guardada, para que chegue o quanto antes às mãos (e à cabecinha) da Rafaela.

Tears!

outubro 29, 2012

20121029-160746.jpg

Los derechos del lector

outubro 29, 2012

Há tempos, li que o leitor tem direitos e adorei. O título do artigo era Los derechos del lector. O que mais me chamou a atenção foi um que dizia que o leitor tem o direito de abandonar um livro, se assim o desejar. Que alívio poder parar no meio ou, até mesmo, logo no início de um livro. Mesmo assim, abandonar totalmente um livro não é, definitivamente, um direito que eu exerça com tranquilidade, no máximo o coloco em suspensão. Atualmente, tenho quatro bons livros em suspensão: Grande Sertão Veredas, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Man’s Search for Meaning e outro do Juan Jose Saer, que de tão suspenso, não lembro o nome). (Outro em suspensão recente: Chega de saudade.)
Estranho falar dos livros suspensos logo hoje, que é o dia nacional do livro. A lógica sugere que eu fale sobre os que estou lendo. Bom, contrariar a lógica também é um direito (do escritor) que eu instituí neste blog. E também já vou parando por aqui (outro direito), só passei para propor um brinde solitário, às 15h e 40min, ao importante dever e ao prazeroso direito de ler!

Para Cachinhos Dourados

outubro 23, 2012

Antes de dormir, um ensaio sobre uma cabecinha de 7 anos.

– Rafaela, vai arrumar o teu quarto para dormir.
– Já vou mamãe, mas antes tenho 5 perguntas, é sobre o mundo…
Como surgiram as árvores, se no início de tudo, não tinha nada, nem semente?
– Filha, no início eram micro plantinhas, que com o passar dos milênios foram se desenvolvendo e chegaram até às florestas. (acho que não fui tão mal…)
– A segunda é: se não existe cor, se nossos olhos é que formam, como eu e tu estamos vendo que este cinto é vermelho? Tá vendo que é vermelho?
– Pois é, formamos a mesma cor. (essa não foi nada bem!)
– Tá, se Adão e Eva foram expulsos do paraíso e depois morreram e os filhos deles também morreram, como vieram as outras pessoas?
– Ora, os filhos de Adão e Eva também tiveram filhos..
– Não, não fala nada disso, pode pesquisar na Bíblia.
– Tá, vou pesquisar. (a ciência e a religião de mãos dadas em nosso diálogo).
– O mundo é redondo, né? Como os astronautas saem para ir para o espaço? Como eles não batem na parte dura?
– Filha, nós estamos na superfície da bola e não dentro dela. (faço a ilustração com a mão)
– Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
– Agora vai arrumar o teu quarto.
– Mamy, tem mais uma, é sobre os mares. Depois eu fico aliviada..
– Tá.
– Como pode ter tanta água, tanta, tanta e ainda assim ter lugar para a gente e para todas as coisas?
– Porque além da água, tem a terra. Em uma proporção de 7 para 10, é água, o resto é terra.
Tá, baby, já arrumei o quarto, agora pega o teu livro e vai dormir.
– Posso dormir contigo?

Rafarela (Rafa + tagarela), como estamos lendo Reinações de Narizinho do Monteiro Lobato, uma das possibilidades é que tenhas tomado uma pílula e: tagarelou, tagarelou a falar!!!!!

“O dia se renova todo dia
Eu envelheço cada dia e cada mês
O mundo passa por mim todos os dias
Enquanto eu passo pelo mundo uma vez
A natureza é perfeita
Não há quem possa duvidar
A noite é o dia que dorme
O dia é a noite ao despertar”

Velha Guarda da Portela

Para Cachinhos Dourados

outubro 1, 2012

Fizemos um trato. Te dei de presente o box Diary of Wimpy Kid, com quatro livros. Combinamos que a cada livro terminado, ganharias um presente, desde que fosse viável, a tua escolha. No início, fiquei em dúvida se estava fazendo a coisa certa, pois “comprar” a leitura de um filho, em princípio, não parece uma atitude nobre. No final da primeira etapa, percebi que foi muito bom e te explico o porquê: a leitura, principalmente no início, é um esforço, sem dúvida, e todo esforço pode ser recompensado. Mas claro que adverti: lê quando quiseres and have fun! Com 7 anos, encarar 200 páginas em outra língua é um exercício mental que anda na contramão da idade do imediatismo, do apelo da televisão, dos brinquedos, do sofá. Ter o hábito de ler requer concentração, trabalho e dedicação. A consequência é sensacional, como aumento do saber, da autoestima, do entendimento, do discernimento, do autoconhecimento, enfim, muitas coisas boas que, justamente por serem boas, devem ser merecidas. Voltando ao prêmio: escolheste uma melissinha, não sei se foi a causa, mas nunca te vi tão feliz com com um presente. Na realidade, já escolheste os outros três presentes também!

Sempre penso que um sentimento comum entre mães é ficar feliz ao ver um filho pequeno comendo frutas e verduras. Quando te vejo lendo, concentrada, ainda fazendo aquele barulhinho bi, bi, bi, bi, tenho essa sensação maravilhosa: a de que estás te alimentando com o melhor da vitamina A, B, C e D.

O Millôr que faz falta.

outubro 1, 2012

“Ser político é engolir sapo e não ter indigestão, respirar o ar do executivo e não sentir a execução, é acreditar no diálogo em que o poder fala e ele escuta, é ser ao mesmo tempo um imã e um caleidoscópio de boatos, é aprender a sofrer humilhações todos os dias, em pequenas doses, até ficar completamente imune à ofensa global, é esvaziar a tragédia atual com uma demagogia repetida de tragédia antiga, é ver o que não existe e olhar, sem ver, a miséria existente, é não ter religião e por isso mesmo cortejar a todas, é, no meio da mais degradante desonra, encontrar sempre uma saída honrosa, é nunca pisar nos amigos sem pedir desculpas, é correr logo pra bilheteria quando alguém grita que o circo pega fogo, é rir do sem-graça encontrando no antiespírito o supremo deleite desde que seu portador seja bem alto, é flexionar a espinha, a vocação e a alma em longas prostrações ante o poder como preparação do dia de exercê-lo, é recompor com estoicismo indignidades passadas projetando pra história uma biografia no mínimo improvável, é almoçar quatro vezes e jantar umas seis pra resolver definitivamente o problema da nossa subnutrição endêmica, é tentar nobremente a redistribuição dos bens sociais, começando, é natural, por acumulá-los, pois não se pode distribuir o pão disperso, e é ser probo segundo autocritério. E assim, por conhecer profundamente a causa pública e a natureza humana, estar sempre pronto a usufruir diariamente o gozo de pequenas provações e a sofrer na própria pele insuportáveis vantagens.”